Lewis Carroll
Alice no País das Maravilhas não é – como pensam muitos – um livro para crianças? Por que, então, indicar sua leitura para quem não é mais criança?
A Duquesa, uma das personagens mais loucas deste livro "louco", diz a Alice: "Seja aquilo que você pareceria ser", e logo passa a explicar a coisa "de um modo mais simples": "Nunca imagine que não ser diferente daquilo que pode parecer aos outros que você fosse ou pudesse ter sido não seja diferente daquilo que tendo sido poderia ter parecido a eles ser diferente".
O célebre gato de Alice prova que é louco com uma curiosa demonstração "lógica": "Para começar", disse o Gato, "um cachorro não é louco. Concorda?". "Acho que sim", respondeu Alice. "Bem", prosseguiu o Gato, "você vê um cão rosnar quando está bravo, e abanar o rabo quando está feliz. Agora, eu rosno quando estou feliz e balanço o rabo quando estou bravo. Logo, sou louco".
As numerosas e divertidíssimas "loucuras" dos dois livros de Alice – este e Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá – implicam questões de lógica (com uso freqüente do absurdo), física (antecipando, em relação às dimensões de tempo e espaço, o horizonte espantoso da ciência contemporânea) e filosofia. Neste último caso estão o enigma da identidade pessoal (tema que veio a se constituir num dos assuntos centrais da filosofia contemporânea), controvérsias sobre ética (portanto sobre valores associados ao nosso comportamento), disputas sobre linguagem (o problema do sentido das palavras, que aparece na discussão com a Duquesa, é central na lingüística e na filosofia), a relação corpo–mente (uma das preocupações mais intrigantes da filosofia em todos os tempos) etc.
Diante disso, não seria exagero afirmar que este foi considerado um livro para crianças porque discrepava muito dos padrões convencionais para poder ser pacificamente aceito pelo universo adulto de sua época. Depois, isso deixou em parte de ser verdade, porque as histórias de Alice passaram a ser lidas tanto por crianças (em adaptações, pois para elas o livro é demasiado complexo) quanto por pessoas mais velhas, desde jovens em busca de diversão até especialistas em literatura ou filosofia – cada um buscando o que corresponde a seu interesse, e cada um vendo um lado real deste livro de muitos lados.
Não obstante, Alice nunca deixou de ser o que sempre foi – um livro de prazer para leitores de todas as idades, uma experiência das mais surpreendentes e deliciosas que o mundo dos livros pode oferecer: narrativa fluente e rica, linguagem brilhante e simples, diversão num ritmo de inteligência veloz (não de burrice veloz, como ocorre hoje em clips, games e em muito da televisão e do cinema). Que uma obra assim pudesse ser lida até por crianças, hoje parece um verdadeiro milagre. E que sua leitura seja dever escolar é, para um estudante que não se deixe levar por preconceitos, a demonstração de que escola e prazer não precisam estar separados.
Sobre as ilustrações: Optou-se pelas ilustrações do gravador americano Peter Newell (1862–1924), por serem bem menos conhecidas que as de John Tenniel, que acompanham a maior parte das edições da obra, desde a primeira. O trabalho de Newell, publicado em 1901, causou controvérsia, pois se concebiam as histórias de Alice separadas das imagens já clássicas de seu primeiro ilustrador. Hoje, podemos ter visões muito diversas do mundo mágico deste livro, como demonstra o quadro utilizado na capa, do artista alemão contemporâneo Sigmar Polke.
Francisco Achcar