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Auto da Barca do Inferno

Gil Vicente

Auto da Barca do InfernoGil Vicente é um caso raro, talvez único, na literatura de língua portuguesa: um autor sobre cuja importância os estudiosos estrangeiros são tão entusiásticos quanto (ou às vezes até mais do que) os próprios portugueses – e não porque os portugueses não lhe atribuam imenso valor! O maior obstáculo que impede um mais amplo reconhecimento da grandeza do poeta reside no desconhecimento da língua portuguesa, tanto em âmbito internacional quanto, paradoxalmente, em contextos nacionais (considerados os diversos países de língua portuguesa). Quanto à situação internacional, um notável crítico e filólogo italiano, Gianfranco Contini, afirma que apenas o "fato de a portuguesa [...] ser a cinderela das literaturas impediu o reconhecimento, em plano europeu, de que este autêntico fundador do teatro ibérico é, em absoluto, uma das personalidades mais poéticas e livres da época do Renascimento". Afastando-se da tendência portuguesa (e também brasileira) de conceder primazia inquestionável a Camões, Contini considera Gil Vicente "talvez o mais valoroso expoente" da literatura de Portugal.

Juízo semelhante é o do austríaco, radicado no Brasil, Otto Maria Carpeaux. Em sua História da Literatura Ocidental, Carpeaux sustenta uma opinião polêmica: "considerando-se que o sentimento nacional de Gil Vicente não é menos vivo do que o de Camões, figura maior e menos original, o crítico estrangeiro, não embaraçado pelo peso das tradições convencionais, saudará em Gil Vicente o maior poeta da língua portuguesa; sem esquecer o seu lugar na poesia espanhola". Mais ainda: Carpeaux considera que "a glória internacional que Hans Sachs conquistou caberia com mais justiça ao seu contemporâneo português". Na sua avaliação, voltada para o amplo horizonte europeu, Gil Vicente é "um grande poeta, um dos maiores da Renascença".

Na mesma linha, Luciana Stegagno Picchio, especialista italiana em literatura portuguesa e brasileira, observa que, "embora os temas, a língua e o estilo vicentino nem sempre sejam exportáveis para outro clima cultural, [...] cada vez mais nos damos conta, mesmo no estrangeiro, de que Gil Vicente é um colosso; de que sua obra não é mero fato local, mas grande documento literário de toda a Europa quinhentista; de que as suas opções lingüísticas não são condicionadas por um público provinciano, mas são escolhas de um nível estilístico em que a comunicação entre autor e público se situa no plano da arte. Percebemos que as comadres, as alcoviteiras e as regateiras, os ratinhos, os almocreves e os fidalgotes, bem como as moças casadoiras que povoam os autos e as farsas vicentinas, têm parentes próximos no teatro de todos os países da Europa [...]; porém, são mais humanos e artisticamente mais autênticos. E, numa época de expressionismo lingüístico, percebemos que o plurilingüismo vicentino é um dos mais luminosos exemplos do engenho artístico e também da disponibilidade cultural quinhentistas".

Poderiam ser aduzidas muitas outras opiniões qualificadas, seja de portugueses (desde André de Resende, grande humanista do século XVI, entusiasta do poeta), seja de espanhóis (que tomam Gil Vicente também como um dos maiores autores da língua castelhana), seja de italianos, franceses, alemães, ingleses ou americanos (e talvez ainda de autores de outras nacionalidades que se dedicaram ao estudo admirado do poeta), mas a conclusão já se impõe: Gil Vicente deve ser contado entre os maiores poetas do mundo em seu tempo e, na literatura de língua portuguesa, disputa o primeiro lugar com gigantes como Camões e Fernando Pessoa.

Mas, se Gil Vicente é assim tão grande e (outra conclusão a que levam os textos que citamos) tão moderno (sobretudo pelo uso estético que faz da variedade de línguas; pela reprodução virtuosística dos diversos discursos que corriam na sociedade; pela estrutura de representação não-clássica, "não-aristotélica"; pelo tom e pelo teor de sua sátira) – se isto é verdade, por que, então, ele permanece tão distante de nós, brasileiros de hoje, e, provavelmente, também da maioria dos que hoje falam português, inclusive em Portugal? Não é porque nós estejamos distantes do seu universo de representação, mas sim porque nós estranhamos a sua língua. E nós, brasileiros, estranhamo-na em grande parte por indolência: se até a língua camoniana, chamada "clássica" e já tão próxima do português moderno não encontra receptividade fácil entre nós, mais grave é a situação da língua "pré-clássica", "arcaica" de Gil Vicente. No entanto, muito dessa língua não deve ser estranho a nós, se atentarmos para diversos elementos dela ainda presentes em dialetos até hoje correntes no país, como é o caso de formas arcaicas encontráveis no linguajar caipira de São Paulo, na fala mineira, em diversas falas nortistas e nordestinas. Por isso, um escritor brasileiro contemporâneo, Guimarães Rosa, pôde misturar, na fala de seus sertanejos, arcaísmos dormentes nos estratos profundos da língua – ou dos dialetos – do Brasil. Portanto, um pouco de imaginação lingüística será suficiente para que os leitores brasileiros, mesmo os mais jovens, sintam o português vicentino como familiar e se capacitem a distinguir, e fruir, os seus maravilhosos recursos poéticos e dramáticos.

Francisco Achcar

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