A Revolução Cubana


Até 1898, Cuba e Porto Rico eram as últimas colônias espanholas no continente americano. Naquele ano, derrotada em uma guerra de seis meses, a Espanha cedeu as duas ilhas aos Estados Unidos. Estes retiveram Porto Rico em seu poder e concederam a independência política a Cuba,  naturalmente protegendo os interesses norte-americanos no país, dentro da célebre Big Stick Policy (Política do Porrete).

Cuba permaneceu sob ocupação militar dos Estados Unidos até maio de  1902, quando entrou em vigor a Constituição Cubana. Antes, porém, o texto constitucional passou pelo Congresso Norte- Americano, que lhe adicionara a Emenda Platt – dispositivo legal que permitia aos Estados Unidos, a seu critério, intervir militarmente em Cuba. No ano seguinte, o governo cubano cedeu aos norte-americanos, em caráter perpétuo, o porto de Guantánamo, que seria transformado em uma importantíssima base militar. O presidente Franklin Roosevelt abriu mão da Emenda Platt em  1934, dentro da recém-formulada Política da Boa Vizinhança; mas Guantánamo permaneceu sob controle dos Estados Unidos.

Cuba fora uma colônia agrícola, centrada na exportação de açúcar e tabaco. Após a independência, a aristocracia fundiária local continuou a se dedicar à lavoura canavieira e tabageira; mas o setor de transformação desses produtos passou rapidamente para o domínio do capital norte-americano. Paralelamente, houve fortes investimentos dos Estados Unidos em refinarias de petróleo, transportes, eletricidade e hotelaria. Devido à grande concentração de renda e ao fluxo de lucros para o exterior, a imensa maioria dos cubanos continuou a viver na pobreza  e mesmo na miséria, no caso dos trabalhadores rurais.

Origem da Revolução Cubana

Nas primeiras décadas do século XX, Cuba foi governada democraticamente, com presidentes dóceis aos Estados Unidos exercendo mandatos de quatro anos (um deles conseguiu dois mandatos  consecutivos). Tropas norte-americanas intervieram no país apenas entre 1906 e 1909. Em 1929, o então presidente, general Gerardo Machado, reelegeu-se fraudulentamente e implantou uma ditadura, derrubada em 1933 por uma revolta de estudantes respaldada por soldados rebelados. Curiosamente, o líder militar do movimento, Fulgencio Batista, era um simples sargento. Promovido rapidamente a coronel e nomeado comandante do Exército, Batista tornou-se o homem forte de Cuba até  1959, governando por meio de títeres (testas-de-ferro) ou ocupando pessoalmente a Presidência da República (1940-44 e a partir de 1952). Durante esse longo período, a violência contra os opositores e a corrupção político-administrativa atingiram níveis inéditos no país.

Em 26 de julho de 1953, um grupo de pouco mais de cem opositores ao regime de Batista, pertencentes à classe média e liderados pelo jovem advogado Fidel Castro, atacou o Quartel de Moncada  a segunda maior base militar da ilha. Derrotados, os sobreviventes da incursão foram presos e torturados; após dois anos, porém, ditador libertou-os.
Fidel e seus companheiros exilaram-se no México, onde travaram contato com militantes comunistas de diversos países que lá viviam  entre eles, "Che" Guevara, provavelmente o responsável pela conversão do liberal Fidel ao marxismo.

Na Cidade do México nasceu o Movimento 26 de Julho, cujo propósito era derrubar Batista e redemocratizar Cuba. Depois de treinarem táticas de guerrilha e havendo obtido alguns financiamentos, 82 militantes embarcaram no iate Granma (atualmente nome do jornal oficial do Partido), rumo a Cuba. Surpreendidos ao desembarcar por forças governistas, somente 17 deles conseguiram ganhar as selvas de Sierra Maestra, no leste da ilha. De lá, começaram a hostilizar as tropas de Fulgencio Batista.

Aos poucos, os guerrilheiros conseguiram ganhar o apoio dos camponeses locais  o que engrossou suas fileiras  ao mesmo tempo em que continuavam a receber apoio financeiro do exterior. Não logrando debelar o reduto da Sierra Maestra, Batista desencadeou uma perseguição cada vez mais dura contra seus opositores. A brutalidade de seus métodos produziu dois resultados negativos: os Estados Unidos retiraram o apoio a Batista, e frações da burguesia cubana, com tendências liberais e nacionalistas, passaram a estabelecer contato com os rebeldes de Sierra Maestra. Em  1958, foi criada a Frente Cívico-Revolucionária Democrática, que unia as forças populares e a burguesia mais progressista na luta armada contra Batista.

A vitória da Revolução

Derrotado em sucessivos combates contra os revolucionários, o exército de Batista  democratizou-se. Assim, nos últimos meses de  1958, as colunas de "barbudos" (marca característica dos combatentes de Sierra Maestra) começaram a progredir em direção a Havana. No dia 3 1 de dezembro, Batista fugiu do país, indo gozar nos Estados Unidos, até sua morte (1973), a fortuna que acumulara em mais de vinte anos de roubalheiras. Em 1º de janeiro de  1959, Fidel Castro entrou festivamente na capital, tendo ao lado seus colaboradores principais: Raúl Castro, "Che" Guevara e Camilo Cienfuegos (um não marxista que um ano depois "desapareceria" misteriosamente em uma viagem de avião).

O governo revolucionário foi organizado com um representante da burguesia, Manuel Urrutia, na Presidência da República; mas o poder de fato ficou nas mãos de Fidel, que se tornou primeiro-ministro. Foi posto em prática um amplo programa de reformas econômicas e sociais: implantação de uma reforma agrária, com liquidação dos latifúndios; nacionalização das grandes empresas estrangeiras (a maioria delas, norte- americanas); e reformulação da política educacional e de saúde, de forma a beneficiar as camadas pobres.

Paralelamente, elementos ligados ao regime de Batista ou apenas opositores do novo governo (todos pertencentes às classes dominantes) foram fuzilados. Assustada, a burguesia rompeu com os revolucionários e emigrou em massa para os Estados Unidos. O presidente Urrutia foi substituído por Osvaldo Dosticós, mais afinado com Fidel. Mas este, em 1963, acabou
assumindo a Presidência da República (o cargo de primeiro-ministro foi extinto), à frente de um regime francamente ditatorial.

Cuba: País Socialista

Em abril de  1961, um grupo de exilados anticastristas, armados e transportados pelos Estados Unidos, desembarcou na Baía dos Porcos, em Cuba, mas foi vencido pelas forças leais a Fidel. Nos meses que se seguiram, o presidente norte-americano Kennedy decretou o embargo ao comércio em Cuba e, em  1962, conseguiu que o país de Fidel fosse expulso da OEA (Organização dos Estados Americanos). Em resposta, Fidel proclamou Cuba um "Estado Socialista" e aproximou-se da URSS.
Seguiu-se a célebre Crise dos Mísseis de Cuba (1962), em que os Estados Unidos reagiram à instalação de bases de mísseis soviéticos em território cubano. Os mísseis foram retirados, mas o governo norte-americano assumiu o compromisso de não mais tentar derrubar Fidel.

Cuba permanece hoje em dia como o único modelo socialista do continente americano (na Nicarágua, o socialismo tentado pelo governo sandinista, no poder a partir de 1979, ruiu-se dez anos depois). Enquanto a URSS existiu, Cuba, beneficiando-se de sua posição estratégica no tabuleiro da Guerra Fria, pôde desfrutar de um comércio altamente vantajoso com o bloco socialista, já que seu açúcar e seu tabaco eram vendidos acima dos preços de mercado e o inverso acontecia com o petróleo fornecido pelos soviéticos. O fluxo de recursos resultante dessa situação fez com que o governo castrista erradicasse o analfabetismo,  alcançasse níveis de Primeiro Mundo na área da saúde pública, criasse uma medicina de ponta em certos setores e até transformasse Cuba em potência olímpica (atrás apenas dos Estados Unidos, URSS e Alemanha Oriental, na conquista de medalhas). Com a derrocada do "socialismo real" e o desmantelamento da URSS (1991), Cuba passou a viver dias difíceis.

O embargo econômico norte-americano, ainda em vigor, voltou a fazer sentir seu peso. A crise econômica levou a um agravamento das condições de vida da população, gerando o fenômeno dos balseros, pessoas que se aventuram pelo mar do Caribe em precárias embarcações, tentando chegar à Flórida a qualquer custo.

Afastado por problemas de saúde, Fidel deixou, em  1º de agosto de 2006, o poder nas mãos do seu irmão e companheiro de revolução, Raúl Castro, que mantém as mesmas diretrizes governamentais do convalescente ditador.